A inserção de tecnologias digitais nas redes municipais de ensino tem avançado de forma significativa nos últimos anos. No entanto, ainda é comum que esse movimento se limite ao uso instrumental de dispositivos, como computadores, tablets e plataformas digitais. Para 2026, o desafio que se impõe aos municípios não é apenas ampliar o acesso à tecnologia, mas promover uma mudança mais profunda: a incorporação do pensamento computacional como eixo estruturante do processo educativo. Busca-se, assim, fomentar um aprendizado aliado ao pensamento crítico, que forme cidadãos capazes de atuar de forma positiva e colaborativa na sociedade.
Uso de tecnologia e pensamento computacional: qual a diferença?
Utilizar tecnologia em sala de aula, como projetar slides, aplicar atividades em plataformas digitais ou usar vídeos educativos, é importante, mas não suficiente. O pensamento computacional vai além: trata-se da capacidade de resolver problemas de forma lógica, estruturada e criativa, mobilizando habilidades como decomposição, reconhecimento de padrões, abstração e elaboração de algoritmos.
Essa abordagem está alinhada às competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente no que se refere à cultura digital e ao pensamento crítico. A BNCC explicita, por exemplo, na Competência Geral 5, que os estudantes devem: “compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares), para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.”
Além disso, a dimensão do pensamento crítico é destacada na Competência Geral 2, que propõe: “exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções.”
Nesse sentido, o desenvolvimento do pensamento computacional, aliado ao uso pedagógico de tecnologias, contribui diretamente para que essas competências se concretizem no cotidiano escolar, promovendo uma aprendizagem mais ativa, investigativa e conectada aos desafios contemporâneos.
Robótica e programação: caminhos para a interdisciplinaridade
A robótica educacional e o ensino de programação são ferramentas potentes para desenvolver o pensamento computacional de forma prática e engajadora. No entanto, sua implementação não deve ocorrer de forma isolada ou como disciplinas desconectadas do currículo.
Os municípios devem então integrar essas práticas de forma interdisciplinar. A integração entre áreas do conhecimento, além de prevista pela BNCC, é cada vez mais cobrada e valorizada em processos seletivos oficiais, como concursos públicos e vestibulares, o que reforça a importância da abordagem.
Veja alguns exemplos de interdisciplinaridade na prática:
Matemática: uso da programação para resolução de problemas, construção de sequências lógicas e compreensão de conceitos como variáveis e funções;
Ciências: desenvolvimento de protótipos com sensores para investigar fenômenos naturais;
Língua Portuguesa: criação de narrativas interativas ou jogos digitais, estimulando a linguagem e a criatividade;
Geografia e História: simulações e modelagens que ajudam a compreender dinâmicas sociais e espaciais.
Essa integração amplia o significado das aprendizagens e torna o ensino mais conectado com a realidade dos estudantes.
Infraestrutura: condição necessária, mas não suficiente
Para viabilizar essas iniciativas, é fundamental que os municípios invistam em infraestrutura adequada. Isso inclui: conectividade, equipamentos funcionais, como computadores, kits de robótica e dispositivos móveis, e ambientes adequados para atividades práticas, como laboratórios.
Entretanto, é importante destacar: a infraestrutura, por si só, não garante inovação pedagógica. Sem intencionalidade educativa, estratégia e interdisciplinaridade, os recursos podem ser subutilizados ou utilizados apenas de forma superficial.
Formação de professores: o maior desafio para 2026
Se há um ponto crucial para a consolidação dessas políticas nos municípios, é a formação docente, uma vez que muitos professores ainda não tiveram contato com programação, robótica ou pensamento computacional.
Dessa forma, para 2026, o maior desafio não será apenas adquirir equipamentos, mas preparar os profissionais da educação para utilizá-los de forma pedagógica e significativa.
Alguns caminhos possíveis incluem:
Programas continuados de formação docente com foco em práticas interdisciplinares;
Parcerias com universidades e instituições especializadas;
Criação de comunidades de prática entre professores;
Formação baseada em projetos e resolução de problemas reais.
E, para além da formação técnica, é preciso desenvolver nos educadores a confiança e a autonomia para explorar novas metodologias.
Caminhos para os municípios
Diante desse cenário, os gestores municipais têm um papel estratégico. Algumas ações podem impulsionar essa transformação:
Inserir o pensamento computacional no currículo de forma transversal;
Planejar a aquisição de tecnologias alinhada a objetivos pedagógicos;
Investir de forma consistente na formação de professores;
Monitorar e avaliar as práticas implementadas, ajustando rotas quando necessário.
Para 2026, a meta é garantir escolas equipadas e, principalmente, capacitar os educadores para formar cidadãos capazes de pensar, criar e resolver problemas em um mundo cada vez mais digital.